terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Je suis Leoninamente

Diz-se que o futebol da actualidade move milhões mas, muito antes desta vertente economicista, começou por alimentar e incendiar paixões. Foi assim no início e assim se mantém, apesar da evolução quase natural de algum clubismo exacerbado, fruto de uma sociedade cada vez mais mediatizada e que promove este tipo de exibições.
Se recuarmos algumas décadas no tempo, ou visionarmos dérbis do século passado, é possível constatar que, apesar de toda a rivalidade já existente quase desde a fundação dos clubes, era possível coexistirem nas bancadas adeptos de cores diferentes.
No presente, como se já não bastasse assistirmos à selvajaria que grassa pelo mundo às mãos de gente sem qualquer civismo ou humanidade, vimos que o futebol fora das quatro linhas também é, cada vez mais, palco de violência e intolerância.
Claro está que a maioria não se revê ou condena actos que envergonham o desporto, mas os sinais de um indesejado radicalismo parecem cada vez mais evidentes.
Apesar da intensa rivalidade e do natural arremesso de adjectivos e argumentos de um lado e do outro, cada vez mais potenciados pelas redes sociais, há limites que são constantemente ultrapassados, também no esgrimir de argumentos e de defesa dos ideiais.
O dérbi, que também aconteceu no futsal no passado fim-de-semana, voltou a exumar lamentáveis acontecimentos através da exibição de uma tarja com a inscrição “Very Light 96”, e culminou com o lançamento de tochas e petardos na direcção dos adeptos sportinguistas presentes em Alvalade, como que a lembrar que esse incidente que vitimou um adepto do Sporting pode não se esgotar num lamentável cartaz mas que pode, sim, repetir-se a qualquer momento.
As manifestações de repúdio e de branqueamento, de um lado e do outro, foram a consequência natural, mas o ego inchado, a prepotência e a intolerância de quem se julga maior do que o próprio país parece não dar tréguas.
Hoje, ao visitar o blog “Leoninamente”, cujo autor defende afincadamente o Sporting mas sempre com uma postura digna e educada (própria da idade e da geração do autor) deparei-me com um comentário a uma pertinente publicação sobre um jogador uruguaio recentemente contratado pela lampionagem.
Até podia não ser pertinente, mas a apregoada liberdade de expressão a que temos direito, desde que exercida dentro dos cânones estabelecidos, é um direito individual e inalienável.
A ameaça a que o autor foi sujeito, relembrando precisamente o crime de 96, é lamentável e retrata o quão fundo se pode descer pelo alegado amor a uma causa.

A barbárie cometida por radicais no Charlie Hebdo há tão pouco tempo, e condenada por quase todo o mundo civilizado, parece não ter tido eco nalgumas cabeças mais arejadas.

O mais preocupante é que estes são episódios cada vez menos isolados, a tendência para propagar-se é bem superior ao actualmente contido Ébola, e não se vislumbra que esteja qualquer vacina em testes para erradicar de vez este praga.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Ice Bucket

Desalento…frustração…desânimo...prostração…desencanto…desilusão…decepção…raiva
O que aconteceu em Alvalade foi futebol que, tal como a vida, é pródigo em injustiças mas isso não impede que me invadam este tipo de sentimentos.
São já demasiados os anos a ver que a fava toca sempre aos mesmos, que a vaca sai para pastar vezes demais e que tenhamos invariavelmente que contribuir, nem que seja com umas migalhas, para a fortuna dos outros.
Talvez por ser conhecedor profundo destas variáveis tivesse prognosticado, a pedido de um amigo (que sabe o meu feeling para estas coisas) este mesmo resultado, embora desejasse profundamente ter-me enganado.
O Sporting não fez um jogo perfeito, mas fez o suficiente para vencer sem sobressaltos um adversário que pareceu, na maior parte do tempo, uma daquelas equipas pequenas que vem a Alvalade jogar para o pontinho.
Tal como Jesus tinha dito no pós-jogo de Paços de Ferreira, “se não ganharmos não podemos perder”, e o objectivo de não perder foi corporizado desde o apito inicial.
A equipa dos milhões entrincheirou-se no seu meio campo e esperou, pacientemente e com boa dose de organização defensiva, que o relógio corresse rápido.
A equipa dos miúdos vestiu a pele de equipa experiente, dominou o jogo durante perto de 94 minutos e demonstrou, uma vez mais, que a classificação actual encerra uma enorme dose de falsidade.
Este Sporting é, sem dúvida, melhor que o líder do campeonato…mas cometeu um pecado no último lance do jogo, em que foi demasiado brando para mandar uma bola para as malvas.
Ou então, como qualquer equipa minimamente experiente, teríamos visto o nosso guarda-redes com uma pertinente lesão nos instantes finais do jogo, tal como as cãibras de Artur durante quase toda a segunda parte, enquanto o resultado lhes era favorável, tal como já tinha feito num recente jogo na ETAR.
Ou então, como qualquer clube com outro ADN, teríamos visto os nossos apanha-bolas desaparecer misteriosamente ou atacados por uma sonolência repentina.
Com aquele golo que mais parecia um Ice Bucket Challenge feito em simultâneo a 50 mil almas fui até levado a lembrar-me que Paulo Bento teria tirado um avançado por troca com um central e um extremo por um trinco, para abordar os últimos lances do jogo, mas Marco Silva não merce tal comparação.
Joga para ganhar, sempre, e também ele foi vítima de um lance fortuito que podia ter acontecido em qualquer outra altura.
Agora as contas são simples.
O título é matematicamente possível, mas objectivamente devemos pensar em agarrar-nos ao terceiro lugar e, enquanto for possível, com o segundo lugar ainda em mente.

Apesar de tudo, acho que devemos ter muito orgulho nesta equipa, mesmo que tenhamos ainda as roupas e a alma geladas.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Curiosidades do dérbi

A capa de hoje do jornal A Bolha dedica grande parte do espaço disponível ao dérbi Sporting-Lampionagem.
Ficamos a saber que Gaitán não estará apto para Alvalade e que no seu lugar deverá avançar Ola John.
Ficamos a saber que Vieira estará na tribuna de honra e, não menos importante, que Paulo Oliveira vai usar caneleiras XPTO.
É de facto um detalhe com uma enorme importância, nem que seja pelo facto de Maxi Pereira estar à solta em campo sem açaime.
Mas desengane-se quem pensa que os assuntos sobre o Sporting se esgotam nas caneleiras do nosso central.
Também Tobias Figueiredo é colocado em destaque, num frente-a-frente com Luisão.

Deste modo, o pasquim realça o facto de que Tobias tinha apenas 8 anos quando Luisão se estreou nos lamps, ou que quando Tobias nasceu Luisão já tinha 13 anos.
Muito interessante.
Mas, se esgravatarmos na nossa memória também recordamos que quando Luisão agrediu um árbitro num jogo-treino na Alemanha, Tobias ainda jogava na equipa júnior.
Quando Luisão foi sodomizado por Liedson no 3º golo do Sporting no estádio do rival, Tobias ainda jogava futebol de 7, nos sub12.
Quando Luisão atropelou Ricardo no jogo que nos retirou o título, Paraty era uma pessoa feliz e Tobias jogava nos sub11 do Penalva do Castelo. Foi no mesmo ano em que Paíto virou as cuecas de Luisão do avesso, num jogo da Taça de Portugal.
Quando Luisão tinha cabelo Tobias ainda era careca.

Também sabemos que, apesar de ter apenas 26 anos, quando Patrício se estreou no Sporting... Artur Moraes, 8 anos mais velho, ainda iria jogar pelo Coritiba, Siena, Cesena, Roma e Braga, antes de bater com o costado na lampionagem.

Um dérbi conserva, de facto, curiosidades dignas de registo.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Jogar ao som do Bolton


Disse Slavchev, na sua apresentação no clube inglês que milita na segunda divisão: 

" Quando era miúdo e jogava consola escolhia sempre o Bolton".

Fiquei sensibilizado ao saber que o médio búlgaro jogava consola ao som de uma soporífera balada do conhecido músico.






Placa giratória

Apesar do mercado de transferências de Inverno já não coincidir com a época natalícia, o adepto sportinguista tem o saudável hábito de olhar para ele com aquele optimismo de quem se portou muito bem durante o ano, e vai ter a consola de último modelo como prenda no sapatinho, e ainda alguns jogos de bónus.
Quando acorda desse bonito sonho percebe que teve apenas mais um par de meias, e com sorte umas cuecas, porque em casa o dinheiro mal dá para o jantar de consoada.
Acaba a maldizer a sorte e a comparar as suas com as prendas dos seus colegas de turma, filhos de malta endinheirada ou com uma boa capacidade de endividamento à banca.
Este ano não fugiu à regra.
O pessoal acreditava que iria ter um central de qualidade indiscutível, um ponta-de-lança goleador e, quem sabe, mais alguma surpresa que os fizesse sonhar com o infinito…e mais além.
Afinal só tiveram um par de meias, e nem sequer estão prontas a calçar. Vieram com o tamanho trocado.
Como se não bastasse, viram o pai emprestar ou dar alguns dos seus pertences, que estavam na arrecadação à espera de melhores dias.
Viu-se sair Fokobo, Iuri, o Gazela, Chaby, Slavchev, Esgaio, Héldon, Rúben Ribeiro, Baldé, Manafá, Cissé, Enoh, Zihao e Maurício.
Enquanto isso, os seus colegas de turma regressaram do mercado com mais um carrinho cheio de novidades, algumas delas com aspecto de terem sido adquiridas no chinês.
Isso pouco interessa, porque o que parece ser relevante é a quantidade exibida, mesmo que a nossa arrecadação esteja a rebentar pelas costuras com aquisições similares e amplamente criticadas.
Li hoje que só esta época já foram utilizados 33 dos que estão em banho-maria na equipa B, que na época passada foram 47 e na anterior 44. Os números não destoam, pelo que deve ser o normal na gestão do plantel à disposição.

Mas enquanto nos auto-flagelamos com a nossa pouca sorte, o colega do Norte, por exemplo, acena com um Hernâni que, apesar de já ir a caminho dos 24 anos, é visto com grande margem de progressão. Talvez a mesma progressão de Tiago Rodrigues ou Ricardo Pereira, também adquiridos em Guimarães, mas que têm o handicap de não possuírem passaporte espanhol. Talvez por isso estejam a fermentar lentamente.
O colega do Norte emprestou os cromos de Ivo, Sami e Otávio, no que poderá ser considerada uma manobra inteligente, como todas as trocas de cromos que esse fulano faz.
Quem também saiu foi Opare, que se autoproclama o futuro melhor lateral esquerdo do mundo, o herói Kelvin, o empecilho Rolando e mais alguns da equipa B que nem o Luís de Freitas Lobo deve saber quem eles são.
Pior ainda é quando o colega novo-rico do Sul ostenta os seus novos brinquedos.
Mesmo que tenham perdido definitivamente Enzo ou a eterna esperança Jara, a chegada daquele miúdo com cara de ser pai do Maxi Pereira parece ser um enorme upgrade para o já faustoso plantel.
As saídas de Nélson Oliveira, Rui Fonte, Hélder Costa, Bebé, Rúben Pinto, Rochinha e mais alguns da equipa B que nem o Luís de Freitas Lobo deve saber quem eles são, foram compensadas com a chegada de mais uma série de jogadores com enorme potencial que, no rival, vêem abertas as portas para, em dois ou três anos, serem colocados no Valência ou no Corunha.
Daí se perceba porque Flávio Silva, dispensado pelo Sporting há pouco tempo atrás, preferiu dar este passo em detrimento do seu regresso ao clube.
Isto de um clube ter boas relações com empresário de renome e com boa capacidade de fazer circular a mercadoria faz do rival uma boa placa giratória, e escancara as portas do campeonato espanhol a qualquer um.