sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Humor fosco


Ontem era difícil não aflorar o tema do dia, mas após a derrota na Alemanha já posso divagar sobre o tema que ganhou alguma notoriedade nas redes sociais, mas que também chegou à imprensa escrita.
Porque, como diz o ditado…”a divagar se vai ao longe”
Falo, claro está, da publicação do jornalista Miguel Somsen na sua página do Facebook, em que teve o desplante de brincar com o ar beto e penteado beto dos sportinguistas.
Vai daí, os betos leoninos revoltaram-se.
Eu, que tenho o cabelo sempre em revolução e ar de sem-abrigo, não me senti minimamente melindrado com esta piada do jornalista que, dada a profusão de ofensas e ameaças, teve que confessar que foi sportinguista até aos seus 10 anos de idade, antes de se transferir a custo zero para adepto do Belenenses.
O comportamento extremista e intolerante de alguns sportinguistas perante uma graçola…tenha ela pouca ou muita piada, terá aproximado alguns do espírito jihadista, numa altura em que a liberdade de expressão ainda está de luto após o ataque terrorista que pretendeu calar um jornal satírico em Paris.
No entanto, esta liberdade não é nem nunca será consensual pois, também eu, acredito que deve haver limites ao que emana da nossa consciência.
Paralelamente aos direitos e deveres consagrados, deve haver a nossa própria censura e, principalmente, um enorme bom-senso na hora de debitar opinião.
Ou isso ou um silenciador de boca, que se pode encontrar em qualquer loja dos chineses por menos de um euro.
Que o diga aquele cidadão que foi detido e multado após ter dito a Cavaco para ir trabalhar, nas comemorações do 10 de Junho. Só um presente de Natal em forma de indulto do Presidente da República o livrou de 1300 chibatadas em forma de euros.

Bom-senso parece não ter faltado a Somsen, na hora de brincar com o espírito beto que ele cola ao adepto tipo do Sporting, mas o sportinguista anda com pouca vontade de rir.
Diferente seria se alguém relatasse na primeira pessoa que se aprestava a embarcar num avião atafulhado de lampiões, com o garrafão de tinto na mão, com a unhaca do mindinho a rondar os 10 cm e o palito atrás da orelha. Este seria o humor onde nos revemos e, sinceramente, espero nunca ter de andar por cima das nuvens nestas condições.
Já me aconteceu chegar a Viena a ouvir o Ésseubê e foi uma experiência que não desejo repetir.

Perante o desfilar de opiniões de desagrado na página do jornalista, houve tentativas de comparação com o anúncio da Sagres com Patrício como protagonista ou com o boneco-vudu de Ronaldo atado a uma linha de comboio, patrocinado pela Pepsi.
Parece-me que os conteúdos não são comparáveis, mas em qualquer destes casos houve uma reacção em cadeia provocada por um sentimento patriótico ou clubista um pouco desbragado.
O que vale é que apesar do espírito jihadista ainda somos o melhor povo do mundo (se retirarmos os lampiões), como disse o então ministro…Vítor Gaspar.

Mas no meio das centenas de comentários que a publicação de Somsen recebeu, houve uma que se destacou.
Foi a do jornalista da TVI, José Gabriel Quaresma, que sugeriu ao seu amigo que colocasse uma bomba no avião.
Será a isto que me refiro quando falo na dicotomia...liberdade de imprensa vs bom-senso?
Não. Isto é pura palermice. Daquela mesmo genuína.
O que pode levar uma criatura mediática, com responsabilidade e visibilidade evidentes, publicar uma sugestão desta natureza?
Palermice genuína.
Nem sequer se pode assacar ao seu lampionismo tal comportamento, pois basta visitar as páginas de alguns lampiões mediáticos para se verificar que só um idiota pode sugerir que se coloque uma bomba num avião com sportinguistas.
Só mesmo um grande idiota pode sugerir que o seu amigo Somsen coloque uma bomba no avião onde o próprio vai viajar.
Perante as ameaças que entretanto recebeu, José Gabriel Quaresma pediu desculpas públicas e lamenta que as pessoas não tenham percebido que tudo não passou de uma piada.
Vou experimentar fazer uma piada “à la Quaresma”: 
-Os lampiões vão jogar contra o Moreirense. Espero que o autocarro caia por uma ravina.

Hmm…mesmo com lampiões envolvidos, acho que o humor de J.G.Q. não funciona.

O jornalista da TVI disse também que “ As pessoas que me conhecem sabem que jamais diria ou pensaria aquilo.”

Eu sou dos que não te conheço, felizmente, mas há uma coisa que não percebo.
Jamais dirias ou pensarias aquilo?
Mas…disseste!!

Ahhhh, mas não pensaste!!
Lampião típico.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Está escrito nas estrelas...ou na testa

Não me apetece muito falar sobre a nossa derrota na Alemanha.
Ainda não li nada sobre o jogo e, deste modo, não sei como estão as tendências da moda, mas nada do que pude observar me surpreendeu.
É verdade que quando fiz a antevisão do adversário na página do Facebook logo me surgiram alguns sportinguistas indignados com alguns elogios que teci ao nosso adversário, pois a nossa grandeza seria mais que suficiente para fazer soçobrar qualquer adversário.
Sim, porque mesmo que um só jogador do Wolfsburgo pague a época toda do Sporting, o nosso rico palmarés português e europeu (uma Taça das Taças ganha há mais de 50 anos atrás) ridiculariza o único título oficial dos alemães.
Sim, porque mesmo que o Wolfsburgo ande a passear classe e eficácia no competitivo campeonato alemão, quem se pode comparar ao nosso clube?
Mas já pouca coisa me surpreende no desporto e no que gravita na sua esfera de influência.

É verdade que o Sporting fez uma primeira parte interessante, onde raras vezes foi surpreendido pelo ponto forte dos alemães, que são as rápidas transições.
E foi também na primeira parte que surgiu o lance que poderia dar outra cor à eliminatória. Uma grande penalidade do tamanho do Big Ben (parafraseando Mourinho) poderia ter dado vantagem ao Sporting e a história não seria a mesma.
No entanto, parece estar escrito nas estrelas que não temos sorte nenhuma com o gajo do apito, ou então parece que temos escrito na testa que somos uns otários, porque o erro cai sempre para o nosso lado.
A nossa sorte na Champions ficou marcada por uma bola na cara que foi transformada em grande penalidade, e a nossa sorte na Liga Europa pode ficar marcada por uma mão na bola que foi grotescamente ignorada.
O Sporting ainda terá muito que crescer enquanto instituição para que lhe seja feita justiça, como ontem aconteceu ao porto em Basileia. Não tenho dúvidas que se fossemos nós a vestir a pele de equipa visitante o árbitro teria considerado casual a mão de Walter Samuel que permite aos portistas outro desafogo na eliminatória.
Mas, se exceptuarmos o lance da grande penalidade que nos foi cirurgicamente extirpada, parece-me que até nos podemos dar por satisfeitos entre o deve e haver.
Para nos lamentarmos dos falhanços de Carrillo e João Mário teremos que pensar nos 4 ou 5 golos feitos que os alemães falharam ou Patrício defendeu.
Agora…é esperar um Sporting muito diferente na próxima semana, mas o cenário é muito sombrio.
É que basta um golo dos alemães em Alvalade e o Sporting terá que marcar quatro para passar a eliminatória. Se pensarmos que nos últimos 8 jogos só por uma vez não sofremos golos (contra a Académica) parece-me que só com um ataque demolidor poderemos acreditar na qualificação.
Mas, como até ao lavar dos cestos é vindima…

O perigo vem pelo ar

Nesta época carnavalesca vesti o meu fato de “homem-invisível” e desapareci da vista humana.
Isto não invalida que tenha estado atento à actualidade leonina, mesmo que tenha andado a poupar nas palavras que costumo partilhar com os habituais leitores.
Hoje, no entanto, não podia deixar de escrever uns parcos parágrafos para solidarizar-me com as preocupações da imprensa relativamente à eliminatória europeia do Sporting.
Nas últimas horas foram muitas as notícias a dar conta do perigo que a equipa leonina pode correr face ao poderio alemão nas bolas paradas.
Apesar da equipa não demonstrar esta época a mesma segurança do ano passado (que parecia ter enterrado o trauma dos cantos e livres que padecemos durante anos a fio) a verdade é que também não temos passados grandes sobressaltos.
…Mas agora vêm aí os “alemães”.
Alemães é uma força de expressão, porque os mais altos e loiros até têm passaporte dinamarquês, belga ou holandês. Menos loiro mas mais alto é o brasileiro Naldo, com os seus quase dois metros.
Apesar de não ser normal acompanhar os jogos do Wolfsburgo, o facto de ser nosso adversário fez-me olhar com outra atenção para os seus jogos.
Desde o final da paragem de Inverno a equipa alemã fez quatro jogos, e demonstrou uma capacidade goleadora preocupante. Vi a vitória em Leverkusen (4-5) e a goleada ao líder Bayern (4-1), mas também estive atento aos resumos do empate em Frankfurt (1-1) e da vitória sobre o Hoffenheim (3-0).
O que realçou do vendaval ofensivo do nosso adversário, que marcou 13 golos em 4 jogos mas podiam ter sido 20, dada a quantidade de ocasiões claras de golo, foi o seu letal contra-ataque e ataque rápido.
Mas os meus olhos de leigo é que me levaram a esta conclusão, porque os entendidos dizem que o perigo vem das bolas paradas.
Aliás, só pelo facto de estar a escrever estas linhas em tom jocoso é garantido que iremos sofrer um golo de um pontapé de canto…ou de baliza.
É tão certo como chamar-me “homem-invisível”.
Mas desengane-se quem pensa que eles marcaram os últimos 13 golos apenas em transições.
Não.
Naldo marcou de livre directo e Bas Dost marcou de fora da área num pontapé fantástico, depois da bola ter sido aliviada pela defesa. 
Não fizeram valer a sua altura (pois marcar livres e rematar de fora da área de cabeça não dá muito jeito)…mas na sequência de lances de bola parada.
O Sporting que se cuide, pois o perigo vem pelo ar.
É o que dizem os entendidos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Mal posso dormir


Esta noite mal pude dormir.
Dei voltas e mais voltas na cama, mas não me saía da cabeça o corte de relações institucionais entre Sporting e lampiões que o nosso clube, unilateralmente, decretou.
Todos sabemos que, independentemente de termos mães, pais, amigos(as), namorados(as), maridos, mulheres, filhos(as), tios(as), avôs, avós, patrões ou, até, algum animal de estimação que seja sócio ou adepto do clube rival, e que tenhamos por alguns deles um intenso amor por força das circunstâncias, nada será como antes se não mantivermos relações institucionais com o clube da roda da bicicleta.
É verdade que nunca morremos de amores pela generalidade dos seus adeptos (e vice-versa).
É verdade que nunca morremos de amores pela arrogância que por vezes demonstram.
É verdade que nunca morremos de amores por terem alterado a data de fundação.
Apesar de todas estas e outras verdades e de todas as diferenças que sempre nos distinguiram, talvez fosse mais bonito manter as aparências e, tal como numa relação condenada ao divórcio, os responsáveis pelas instituições mantivessem o sorriso de circunstância e, talvez, até fossem vistos juntos em iniciativas públicas a trocar apertos de mão.
Seria mesmo bonito que tudo pudesse continuar como até aqui.
Os rivais podiam, até, continuar a aliciar telefonicamente atletas de uma modalidade do Sporting para mudar para o outro lado, desde que esta prática não beliscasse as aparências.
Ou, quem sabe, convencer atletas de uma outra modalidade para fazerem um ano como individuais para no ano seguinte aparecem com a roda de bicicleta ao peito, passando por cima de acordos estabelecidos.
Nenhuma destas e de tantas outras práticas que podem corroer a confiança justificam medidas drásticas e que lesam a boa imagem do clube.
Não me conformo com o corte de relações e aposto que hoje terei mais uma noite mal dormida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Je suis Leoninamente

Diz-se que o futebol da actualidade move milhões mas, muito antes desta vertente economicista, começou por alimentar e incendiar paixões. Foi assim no início e assim se mantém, apesar da evolução quase natural de algum clubismo exacerbado, fruto de uma sociedade cada vez mais mediatizada e que promove este tipo de exibições.
Se recuarmos algumas décadas no tempo, ou visionarmos dérbis do século passado, é possível constatar que, apesar de toda a rivalidade já existente quase desde a fundação dos clubes, era possível coexistirem nas bancadas adeptos de cores diferentes.
No presente, como se já não bastasse assistirmos à selvajaria que grassa pelo mundo às mãos de gente sem qualquer civismo ou humanidade, vimos que o futebol fora das quatro linhas também é, cada vez mais, palco de violência e intolerância.
Claro está que a maioria não se revê ou condena actos que envergonham o desporto, mas os sinais de um indesejado radicalismo parecem cada vez mais evidentes.
Apesar da intensa rivalidade e do natural arremesso de adjectivos e argumentos de um lado e do outro, cada vez mais potenciados pelas redes sociais, há limites que são constantemente ultrapassados, também no esgrimir de argumentos e de defesa dos ideiais.
O dérbi, que também aconteceu no futsal no passado fim-de-semana, voltou a exumar lamentáveis acontecimentos através da exibição de uma tarja com a inscrição “Very Light 96”, e culminou com o lançamento de tochas e petardos na direcção dos adeptos sportinguistas presentes em Alvalade, como que a lembrar que esse incidente que vitimou um adepto do Sporting pode não se esgotar num lamentável cartaz mas que pode, sim, repetir-se a qualquer momento.
As manifestações de repúdio e de branqueamento, de um lado e do outro, foram a consequência natural, mas o ego inchado, a prepotência e a intolerância de quem se julga maior do que o próprio país parece não dar tréguas.
Hoje, ao visitar o blog “Leoninamente”, cujo autor defende afincadamente o Sporting mas sempre com uma postura digna e educada (própria da idade e da geração do autor) deparei-me com um comentário a uma pertinente publicação sobre um jogador uruguaio recentemente contratado pela lampionagem.
Até podia não ser pertinente, mas a apregoada liberdade de expressão a que temos direito, desde que exercida dentro dos cânones estabelecidos, é um direito individual e inalienável.
A ameaça a que o autor foi sujeito, relembrando precisamente o crime de 96, é lamentável e retrata o quão fundo se pode descer pelo alegado amor a uma causa.

A barbárie cometida por radicais no Charlie Hebdo há tão pouco tempo, e condenada por quase todo o mundo civilizado, parece não ter tido eco nalgumas cabeças mais arejadas.

O mais preocupante é que estes são episódios cada vez menos isolados, a tendência para propagar-se é bem superior ao actualmente contido Ébola, e não se vislumbra que esteja qualquer vacina em testes para erradicar de vez este praga.