terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os burros e os homens

Tal como já referi, o dérbi Sporting-benfica é o jogo que move mais paixões, mesmo que os clássicos porto-benfica sejam, nos últimos anos, os jogos das grandes decisões.
Por isso, é normal que esses jogos tenham direito a vários prolongamentos.
No entanto, o equilíbrio que se verificou em campo ganha uma desproporção em várias vertentes.
Primeiro foi o árbitro, Duarte Gomes, que desequilibrou o jogo.
Mas, apesar dos dois penáltis a favorecer o Sporting que ficaram por marcar, foram várias as vozes que se levantaram, defendendo o indefensável.
O insuspeito Jorge Jejuns abriu as hostilidades, dizendo que “Duarte Gomes fez excelente arbitragem”.
Já nem seria necessária auscultar mais nenhuma opinião, depois de ouvir tão sábias palavras, saídas precisamente pelo mesmo esgoto do pensamento que há uns meses saiu o “limpinho, limpinho”.
Mas...não vão as pífias mentes desconfiar de tão ímpia figura, veio agora o imparcial Pedro Proença dizer “Duarte Gomes fez excelente arbitragem”.
Bem, se P.P. o diz, já começo a ficar convencido, mas ainda mais graças à sua justificação, se já não bastasse ter um percurso imaculado nos jogos em que dirigiu o Sporting:
“Teve de tomar perto de 150 decisões naquele jogo e se errou numa ou noutra não é isso que fará uma arbitragem negativa”.
Se bem me recordo, começou logo por acertar no apito inicial. Foi no tom e intensidade perfeitos.
Já só faltam 149.
Mas, agora que começo a pensar de modo mais racional, estou em crer que essas 149 serão suficientes para apagar os dois penaltis rapinados ao Sporting…porque esta análise deve ser em função da quantidade e não da gravidade dos erros.
Poderei então dizer, em linguagem automobilística, que o piloto Duarte Gomes fez uma prova excelente, fazendo na perfeição 148 curvas do circuito, mesmo que tenha falhado as duas últimas curvas e tenha espatifado o carro que conduzia?
Parece que sim, é deste modo que funciona.
O pior é que abalroou o carro que se preparava para vencer a corrida, deixando caminho aberto para o que vinha atrás.
Nem sequer me devia dar ao trabalho de referir que ainda teve mais uns erros de trajectória, sempre prejudicando o mesmo carro, mas o que fica para a história é mesmo o despiste final.

Mas também a classe veio defender o Gomes, através de Carlos Esteves, presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Lisboa e antigo líder do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol.
Ui, com este currículo, já estou completamente rendido à sua idoneidade.
Disse o sujeito: “Duarte Gomes para a jarra? Não queria falar no Rui Patrício, que teve um azar como qualquer um pode ter. Muito honestamente não vejo razão para o Sporting vir com este disparate todo”.
Lá está. Não podemos pensar só com metade dos neurónios disponíveis.
É só raciocinar um pouco e admitir que, como Patrício teve aquela infelicidade, Duarte Gomes já está no seu direito de falhar em dois momentos cruciais.
De qualquer modo, parece-me que o árbitro está a ganhar por 2-1 a Patrício, dando de barato um fora-de-jogo quase impossível de ser sancionado, tal como aconteceu com Montero.

“Querem crucificar Duarte Gomes”, terá dito Carlos Esteves, mas dado que Jesus foi rápido a dispensar a cruz que lhe estava reservada, caso tivesse perdido o dérbi, imediatamente quiseram arranjar-lhe um arrendatário.

Mas a alusão de Carlos Esteves a Patrício, o tal (ir)responsável da arbitragem, teve eco no comunicado do benfica, pela voz de Querido Manha, director do jornal record.
Como não bastassem os canais oficiais do clube encarnado, ainda dispõe de maior visibilidade para deturpar os acontecimentos, através de um meio de comunicação supostamente independente.
Assim, o querido veio branquear qualquer erro arbitral, atacando de forma despudorada o guarda-redes do Sporting e da Selecção Nacional que, como se sabe, tem um teste de fogo dentro de poucos dias, no play-off de apuramento para o Campeonato do Mundo.
Depois de Patrício ter sido alvo de uma manobra de desestabilização emocional concertada, na sua visita ao Estádio do Ladrão, agora é o benfica, através de um editorial completamente descabido, mandar às malvas os interesses nacionais em prol do interesse do quintal.
Querido dá exemplos de guarda-redes que ficaram marcados para a eternidade por erros que considera iconográficos, enquanto considera que os dos árbitros são banais.
Para não exemplificar com jogos do Sporting, perguntaria se Querido Manha acha o erro de Marc Batta, que expulsou Rui Costa numa substituição e impediu Portugal de estar presente no Mundial 98, iconográfico ou banal.
Pela linha de raciocínio do mandarete, se é que ela existe, este terá sido um erro banal.
Também poderia dar imensos exemplos de guarda-redes de topo com frangos do tamanho de Querido Manha, ou seja, do tamanho de um pedregulho, sem que isso lhes tenha marcado a carreira e tenham deixado de ser considerados os melhores do seu tempo.
No entanto, como algumas opiniões mudam conforme o vento que sopra, temos que dar um pouco de desconto aos cata-ventos.

Com esta pérola do director do record, o comunicado oficial do benfica acaba por perder todo o interesse.