quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mirra e incenso

O meu caro e eclético amigo Henrique Salgado costuma enviar-me, bem como a todos os que se preocupam com determinados números, as actualizações das competições oficiais onde o Sporting mais se faz notar, conforme estas vão tendo o seu epílogo.
Recebo, durante o ano, mapas de cada uma das modalidades e, num espectro mais alargado, mapas comparativos de todas as modalidades.
Apesar de muitos adeptos leoninos gostarem de desfraldar e agitar a bandeira do ecletismo, para reafirmar a vocação e grandeza do clube, a verdade é que alguns só o fazem em dia de vitórias, enquanto outros só agitam a bandeira do futebol.
Se estes últimos só estarão preocupados por estarmos entalados no 2º maior jejum da história do futebol leonino, os primeiros podem começar a ficar preocupados pela crescente perda de influência das modalidades do Sporting.
Os mapas do amigo Henrique não enganam.
Olhando só para os últimos cinco anos, o Sporting conseguiu 4 títulos na época 2009/10, e 6 títulos por ano daí para cá.
Já o Porto conquistou 10 títulos nas épocas 2009/10/11/12, e arrecadou 8 troféus na época 2012/13.
O Benfica, fruto de investimento e trabalho de base no atletismo, mas também com resultados de relevo no hóquei ou no basket, cresceu dos 7 troféus em 2009/10, para 9 no ano seguinte, e 12 nas duas últimas épocas.
Felizmente ainda vamos tendo o futsal, que vai equilibrando a contabilidade, mas até onde não existem rivais, como no Ténis de Mesa, vamos aos poucos perdendo a hegemonia.

Precisamente hoje, dia em que recebi uma dessas actualizações, é notícia a parceria estratégica do Sporting com uma empresa angolana que disponibilizará um autocarro topo de gama para a equipa de  futebol e promoverá a troca de relvado, por um outro topo de gama.
Ao ler que os Reis Magos vão enviar estas prendas, fiquei com pena que não possam arranjar também um pavilhão, mesmo em segunda mão, que bem embrulhado em papel de jornal chegasse intacto e pronto a usar. 
Vão enviar a mirra e o incenso, mas ficou a faltar o ouro.

Eu sei que um pavilhão não tem o valor de um autocarro, e andará mais perto de um pacote Elias/Pongole, mas não consigo deixar de imaginar quanto tempo mais as modalidades andarão com a casa às costas.
Apesar das nossas amadoras, à imagem do futebol, também lutarem contra orçamentos dos rivais incomparavelmente superiores, não tenho dúvidas que as condições de trabalho, e o aconchego da nossa casa, poderia ser um trampolim para voltarmos a ser competitivos.
Felizmente temos muitos anos e títulos de avanço, para ainda podermos dizer que somos a maior potência desportiva nacional.
No entanto, porque o tempo não pára, este título que tanto nos orgulha não durará eternamente, se não tentarmos inverter a tendência de definhamento.
Há 35 anos atrás, podiamos pensar que o 2º lugar que o futebol ocupava na hierarquia nacional seria intransponível.
O Porto tinha 5 títulos em 1977, o Sporting 14.
Daí para cá, o Porto passou para 27, e o Sporting está com 18.
No andebol, também já fomos ultrapassados, perdendo uma vantagem que parecia suficiente para ir gerindo.
Enquanto formos adiando uma das muitas prioridades, a água continuará, de modo tranquilo, a passar debaixo da ponte.