segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Pesos e medidas

Ontem já escrevi um rápido desabafo, ainda sob efeito do que me ia na alma, após mais um empate do Sporting para o campeonato.
Referi, sem pudor, que a primeira parte não terá sido do agrado de nenhum sportinguista, e nos quais me incluo.
Vinquei, também sem pruridos, que o Sporting foi mais uma vez emboscado pelos índios, ou pelos cowboys, neste verdadeiro Far West, enquanto noutro campo se montava outra cilada.

Graças a esta dupla constatação, continuo a não ser capaz de fazer coro com os que só encontram no plantel, equipa técnica e estrutura para o futebol, todos os males da classificação actual, mesmo que estes possam ter contribuído para o terrífico cenário.
Não sou capaz de fazer coro, e volto a dizer, porque continuo a não ver escrito em lado algum que uma equipa tenha que ser superior a outra para vencer, mesmo que o tenhamos sido.
Não vejo escrito em lado algum que, para vencer, seja necessário rematar mais, ter mais posse de bola ou fazer 90 minutos imaculados.
Não vejo escrito, tão pouco, que o campeonato se jogue com regras distintas…para diferentes clubes.

Tenho lido, isso sim, que enquanto os adeptos rivais se deliciam com o estado comatoso do nosso futebol, branqueando as críticas que fizeram durante décadas ao poder a Norte, os nossos adeptos se digladiam numa luta fratricida.
Porque, em casa onde não há pão (pontos) todos ralham e ninguém tem razão.

Uns tentam manter a sua fé à tona, agarrando-se com todas as forças às sucessivas mentiras que acontecem um pouco por todo o lado, proclamando justiça.
Outros, afastam com desdém as águas conspurcadas onde nos debatemos e apontam o dedo à gestão desportiva, proclamando mudança.

Mas, quando oiço alguns sportinguistas descrever os nossos defeitos como fonte de todos os nossos pecados, apetece-me citar uma passagem da Bíblia, apesar de eu ser agnóstico.

“Não carregueis convosco dois pesos, um pesado e o outro leve, nem tenhais à mão duas medidas, uma longa e uma curta. Usai apenas um peso, um peso honesto e franco, e uma medida, uma medida honesta e franca.”



Esta passagem foi adaptada há uns anos pela classe política portuguesa, que passou a usar com frequência a frase “…dois pesos e duas medidas”, mesmo que o mais correcto fosse dizer “…um peso e duas medidas”.
Mas também é frequente falar-se em pesos e medidas nos direitos humanos, no poder local, no desporto ou na justiça.
Se nos focarmos nesta última, acredito que qualquer cidadão português, seja ele adepto do Sporting, benfica ou porto, se sinta indignado quando se apercebe que há uma justiça para pobres e outra para ricos.
Ninguém fica indiferente à leitura que se faz da lei, e aos casos que nos entram pela tv a cada dia.
Todos se indignam com a impunidade que um determinado estatuto e poder concede a uma pequena elite, enquanto à maioria lhe são vedados esses privilégios.
Todos nos recordaremos do julgamento de uma idosa por ter furtado um artigo de 2,79 €, com um pedido de indemnização disparatado, enquanto os crimes da alta finança são sustentados por todo um povo e se arrastarão nos tribunais até prescreverem.

Estes peso e medidas diferentes passaram a ser uma imagem de marca do país.
Também no futebol os clubes jogam com regras diferentes, com pesos e medidas díspares.
O que a uma elite é permitido, aos outros é negado, num sistema completamente viciado e que deveria, também ele, unir todos em redor de uma causa.
Contudo, aqui o povo já está dividido, porque a justiça com a qual se indigna e a igualdade que proclama tem uma fronteira bem definida.
A linha que separa o seu clube de todos os outros.
A mesma linha que separa a mentira da verdade.