quinta-feira, 22 de março de 2012

Shakespeare, grande ponta-de-lança


Já aqui referi várias vezes que deixei, há muito, de comprar o lixo jornalístico que abunda nas bancas. O Sporting é uma paixão, igual a tantas outras, e é cada vez mais frequente depararmo-nos com notícias, crónicas ou artigos de opinião onde o nosso clube é vilipendiado, maltratado publicamente ou tratado de modo tendencioso, pelo que me abstenho de contribuir monetariamente para a causa por que estes pugnam.
Quando no café me cai no colo um Correio da Manhã não lhe deito fogo, mas folheio-o quase sempre de modo apressado, fintando os crimes, os classificados e as páginas cor-de-rosa, pelo que resta a meteorologia e as palavras cruzadas. Às páginas de desporto, dado conhecer o ADN desta publicação, também só passo os olhos, mas com o único intuito de descobrir alguma notícia das modalidades amadoras, das quais sou seguidor atento.
Ontem, quando mais um destes espécimes deu à costa na minha mesa de café, saltou-me imediatamente à vista o título de um artigo, na sua última página:"Síndroma de Calimero".
Se a analogia ao simpático galináceo não fizesse parte das habituais tácticas usadas por terceiros para justificar os roubos a que o Sporting é sujeito, não estranharia. No entanto, como é um termo há tanto tempo usado pela generalidade de não-sportinguistas , logo desconfiei do seu conteúdo. 
Sem estranheza, pude ler:
"A personagem do Calimero, o pintainho chorão infeliz com o mundo, tem muitos émulos em Portugal. Nas empresas, na política, nas escolas, até na vida privada, a culpa das falhas é sempre dos outros. A responsabilidade é um conceito estranho neste País. Um exemplo do síndroma é a reacção do Sporting face à derrota em Barcelos.
Houve erros claros de arbitragem, mas a equipa do Gil Vicente foi superior. Se não aprender a corrigir os erros, o Sporting não ganhará nada, para tristeza dos adeptos. Se lerem os clássicos, os responsáveis leoninos podem aprender alguma coisa com Júlio César, de Shakespeare, que lembra: "A culpa, caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós próprios."

Armando Esteves Pereira, director-adjunto


Mesmo que este blogue tenha o mesmo valor para este Sr. Armando como o Correio da Manhã tem para mim, gostaria de dizer ao director-adjunto que já é bom que admita que houve erros claros de arbitragem. Até me estranha que consiga chegar a essa conclusão. Já não me estranha que não admita que erros graves de arbitragem, na maior parte das vezes, estejam directamente ligados à dicotomia vitória/derrota.
Também gostaria de ter a acutilância visual que lhe permitiu descobrir que o Gil Vicente foi superior. Já Shakespeare dizia: "As pequenas mentiras fazem o grande mentiroso". Que o Sporting não tenha sido dominador durante o primeiro terço do jogo é uma certeza, mas daí até achar que os gilistas foram superiores, vai uma grande distância. As estatísticas assim o demonstram, bem como um olhar despudorado ao encontro.
Também diz o adjunto que,  se o Sporting não corrigir os erros não ganha nada. Como acontece até com os mais inaptos, pode ter ponta de verdade nesta afirmação, mas convenha-me acrescentar que, mesmo corrigindo os erros, pode não ganhar nada, desde que os erros crassos continuem a prejudicar-nos, como até aqui.
Aliás, poderia voltar a citar Shakespeare, dizendo: "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém".
O jornalismo está em crise profunda, a par da arbitragem e, porque não, citando o próprio adjunto, as empresas, a política, as escolas, e até a vida privada.
Aproveitando o saber deste escritor, nada como adaptar a algum jornalismo, como a quase toda a política, outra frase de Shakespeare, com muita propriedade: " É uma infelicidade da época, que os doidos guiem os cegos".

 
Como já devem estar fartos de  Shakespeare, vou citar o padre-escritor António Vieira:
"A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas."