quarta-feira, 12 de junho de 2013

Em terra de cegos, quem tem um olho é rei

"Investimento no "9" será o maior esforço financeiro a fazer pela direcção de BdC ".

Esta é uma das ideias que passa na secção relativa ao Sporting, numa das publicações desportivas.
A mesma notícia resgata os nomes de Acosta, Jardel, Liedson e Wolfswinkel, as grandes referências dos últimos 15 anos no ataque do Sporting, para afirmar que:
"Entre 1998 e Maio de 2013 - altura em que o holandês fez o último jogo de leão ao peito - nunca os verdes e brancos tiveram reais problemas na hora de fazerem abanar as redes adversárias.

Permitam-me discordar desta última frase mas, se é verdade que a memória de vez em quando falha, já os números são soberanos.
Para recordar a última época não é necessário recorrer a Memofante, o suplemento para memórias cansadas. 
A não ser que o futuro nos reserve algo ainda pior, a época 2012/2013 já entrou para a história, não só pela pior classificação de sempre mas também pela escassez de golos.
Os 36 golos em 30 jornadas não têm paralelo, mesmo que pontualmente tivéssemos sofrido alguns períodos de seca semelhante. Só em duas épocas dos anos 60 tivemos uma eficácia igualmente sofrível, com número de golos idênticos mas a serem repartidos por 24 e 26 jogos, o que altera significativamente a média de golos.
A que mais se aproximou acaba por ser a época 89/90, com 42 golos em 34 jornadas, um registo igualmente risível.
Os números deste ano não foram ainda mais negativos porque a equipa lembrou-se de proporcionar a goleada da época na última jornada, em Aveiro, mas a média final de 1,2 golos por jogo não podem ser apagados.
No entanto, a escassez não foi algo repentino.
O certo é que o campeão nacional dos tempos modernos anda quase sempre na casa dos 60/70 golos para o campeonato enquanto o Sporting, nos últimos 5 anos, não saiu da casa do 40. Portanto, esta triste época onde caiu para a casa dos 30 golos, só denota a galopante decadência ofensiva.
Longe...muito longe vão os 96 golos de Yazalde e C&a, que valeram o título da época 73/74...e muito mais os 123 golos em 26 jogos da época 46/47, mas isso já são números cheios de pó, que fazem companhia a taças em museus.

Deste modo, e olhando friamente para os números dos últimos 6 anos, acho absurda a constatação a que o jornalista chegou.
No entanto, é curioso verificar que as diferenças nos números apresentados pelos referidos pontas-de-lança não os distingue tanto quanto seria de esperar.
A não ser que sejam os números das camisolas.
Acosta jogava com o 11, e a média final nos campeonatos que disputou foi de 0,58 golos por jogo, com destaque para os 22 golos na saborosa época do título.
Jardel jogava com o 16, e apresentou uma média estratosférica, com 1,08 golos por jogo, em jogos para o campeonato. Os 42 golos na sua época de estreia ficarão imortalizados.
Liedson escolheu o 31, e também não cairá no esquecimento, apesar da média de golos ter sido de 0,55 golos por jogo. Os seus 25 golos numa época foram o ponto alto.
Wolfswinkel adoptou o 9, a camisola que agora procura dono. O holandês vai-se embora com uma média de 0,51 golos por jogo, no campeonato, o que afinal de contas se enquadra dentro do que foi o historial de dois dos jogadores mais idolatrados pelos adeptos.
Claro está que também podemos socorrer-nos de um outro ponta-de-lança, que fez a ponte entre Liedson e Ricky, para chorarmos  baba e ranho.

Postiga, o 23, teve uma média de 0,17 golos por jogo, com destaque para a época em que marcou um golo em 22 jogos.  O das Caxinas podia não fazer abanar as redes adversárias, mas os postes das balizas nunca mais foram os mesmos. 
Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

Feitas as contas, o que se procura não é um 9.
O Sporting precisa com urgência de um goleador, jogue ele com o 9 ou com o 1.
Se não fosse pedir muito, também seria interessante ter médios que integrassem as movimentações ofensivas, e que tivessem faro pela baliza.
Já agora, não seria de desdenhar que os centrais também gostassem de molhar a sopa, de vez em quando.