segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pescadinha de rabo na boca

Dos 21 convocados da selecção Nacional de Sub20, que vai disputar o Mundial da Turquia, a esmagadora maioria tem carimbo Made in Academia.
Rafael Veloso, Ilori, Mica, Edgar Ié, Agostinho Cá, João Mário, Esgaio, Bruma e Ricardo já vestiram a verde e branca. Praticamente uma equipa.
Contudo, alguns já perderam o vinculo ao clube, e ainda a procissão vai no adro.
Já só restam cinco, e um deles também está com um pé do lado de fora.
Como foi possível desbaratar anos de trabalho, em troca de uns sacos de amendoins ou por simples incompetência?
No entanto, desde que foi divulgada a lista de convocados, muitos sportinguistas se interrogam ou indignam pela ausência de Betinho, ponta-de-lança leonino.
Eu sou desconfiado, mas tento acreditar que Edgar Borges só quer o melhor para os interesses nacionais.
Os treinadores são soberanos e, à partida, íntegros e isentos. 
No entanto, se nos lembrarmos da ausência de Moutinho no Mundial da África do Sul, preterido por um qualquer Ruben Amorim e, passado dois meses, já depois de mudar de camisola, dá-se o seu regresso à selecção com o mesmo seleccionador, faz-nos levantar muitas interrogações acerca dos interesses instalados.
Os que simplesmente conversamos no café sobre o desporto-rei, pouco ou nada sabemos da grande teia que envolve o nosso futebol.
Por mero acaso, também numa simples conversa de café, soube de casos inacreditáveis envolvendo a arbitragem, com nomes mais ou menos conhecidos.
Casos contados na 3ª pessoa mas dos quais não duvido, porque os intervenientes são do círculo íntimo dos que me contaram as histórias.
Um deles referia-se a um ex-árbitro internacional, e metia muita fruta.
Provavelmente, o que me foi dado saber são histórias para adormecer crianças, se comparadas com as muitas que têm ocorrido ao longo dos anos.

Por falar em histórias estranhas, no programa "Tempo Extra" deste Domingo, Rui Santos abordou um dos casos que ele considerou como tendo sido uma das referências do campeonato.
Referia-se ao penalty cometido por um defesa maritimista no jogo com o Benfica, logo aos 4 minutos de jogo, numa entrada desmiolada que Rui Santos considerou, no mínimo, estranha.
Quem viu a arbitragem de Capela, na semana anterior, deixou de acreditar em coincidências. 


Neste campo da pulga atrás da orelha, também posso citar alguém por quem nutro alguma simpatia, ou não fosse ele meu conterrâneo, e que sempre demonstrou uma diferente maneira de estar, no peculiar futebol português.


Sente que o seu país reconheceu o seu trabalho?
... Eu afrontei sempre o poder maléfico e corrupto instituído no futebol em Portugal. Tentaram tudo para me prostituir, tentaram derrotar-me, tentaram comprar-me, mas nunca o conseguiram....Acabei por criar uma série de anticorpos, principalmente no poder instituído e que é um poder maligno.

Estas palavras são do treinador Manuel José, que saberá algo mais do que meras conversas de café.

Eu sei que para lá do poder maléfico e corrupto, também muitos adeptos não gostam dele, mas confesso que aprecio algumas das suas intervenções.
Nunca ouvi da boca de Manuel José a assumpção da sua cor clubista mas acredito que, entre ter ido jogar com 16 anos para o Benfica e ter um pai (que eu conhecia pessoalmente) que era um doente sportinguista, sempre de radio colado ao ouvido quando o Sporting jogava...a herança familiar deve ter falado mais alto.
Claro está que não concordo com tudo o que o treinador debita, mas desta recente entrevista, concedida no final de Maio ao Jornal do Algarve, retiro mais 3 curiosidades.


Pondera voltar ao futebol português?
Não, é difícil. Quero treinar um grande clube e o meu espaço nos clubes grandes portugueses acabou. Também vejo a minha idade...É que eu não pinto o cabelo e sei perfeitamente a idade que tenho."

Aceitava treinar o Porto?
Com o actual presidente não.

Porque é que acha que não há talentos?
Porque não se faz formação, mas sim equipas para ganhar títulos. E a culpa é dos clubes. Os treinadores, por necessidade de ter emprego, fazem equipas para ganhar títulos e não para formar jogadores. Não digam que há formação. Eu não posso ver uma equipa de miúdos de oito anos a jogar como se fossem adultos. Naquela idade ainda nem sequer está definida qual é a melhor posição que se adapta melhor às suas características.
...
Em termos de futuro, vamos ter um grande problema no futebol em Portugal.

Porque as conversas são como as cerejas, mas também como as pescadinhas de rabo na boca, esta crónica começa e acaba com os jovens da formação, desta feita com as palavras de Manuel José como pano de fundo.
Tal como ele, não estou muito confiante num futuro risonho, mesmo que a maioria julgue ser um sacrilégio criticar o trabalho da Academia e ataque quem pensa de modo diferente.
Para alguns, qualquer jogador saído de Alcochete, chame-se Pereirinha, Carriço, André Marques, Tiago Pinto ou Saleiro, tem um valor incontestado.
Poderia mencionar ainda dezenas de vítimas da natural triagem que ocorre todos os anos, mas os seus nomes nem sequer seriam reconhecidos.
A maioria, joga em divisões secundárias ou em clubes de nome impronunciável.
Nos últimos anos fomos obrigados a apostar na prata da casa, ao invés dos rivais, por questões meramente financeiras, mas que tenhamos ainda uma formação reconhecida, não é sinónimo de um trabalho sem mácula.
Tivemos Ronaldo (e também Figo e Simão, ainda numa outra fase)...Nani, Moutinho...e poucos mais com expressão incontestável.
Quaresma, Veloso, Carlos Martins, Varela, Hugo Viana, Custódio...foram alguns dos muitos formados no clube que atingiram um patamar elevado, mas os que emigraram provaram que o seu valor tinha limitações.
Aparentemente, esta nova fornada que tem como maiores referências os jogadores que vão ao mundial da Turquia, tem uma qualidade acima da média, mas iremos ver, em confronto com outras realidades, se o orgulho na nossa academia é ou não justificado.