domingo, 13 de maio de 2012

Memória e glória


Esta madrugada preparei-me para ver mais um jogo dos play-offs na NBA entre os verdinhos do Boston Celtics e os 76'ers.
Num dos tempos mortos fiz um zapping e deparei-me, no RTP Memória, com o jogo da final da Taça de Portugal de Hóquei em Patins entre o Sporting e o Porto, na época de 1987/88.
Num ano e numa semana em que celebramos, precisamente, o retorno da modalidade à 1ª divisão, foi com entusiasmo e saudade que acabei por ver a referida final, relegando os Celtics para o diferido que a NBA TV proporciona.
Muito se falou do célebre dream team da década de 70 (Livramento, Chana, Rendeiro, Sobrinho e Ramalhete) que conquistou para o nosso museu mas também para Portugal a primeira Taça dos Campeões de Hóquei, mas esta equipa que em 1988 perdeu a final que ontem pude rever, conquistou o último título nacional da modalidade para as nossas cores.
Quando comecei a ver a transmissão e ouvi a célebre corneta de um adepto portista pensei logo em desligar, pois calculei tratar-se de algum jogo para o campeonato, no antigo pavilhão das Antas e, deste modo, seria um jogo perdido ainda antes de ter começado.
O Porto vencia por 2-0 quando comecei a ver, mas rapidamente o Sporting chegou à igualdade por intermédio de Paulo Almeida, um jovem imberbe e quase anoréctico.
Nessa altura foi possível comprovar que, afinal, as bancadas estavam muito preenchidas por adeptos sportinguistas no pavilhão da Anadia, algo que nesses idos anos 80 era possível constatar, por força da predominância que as nossas modalidades detinham no panorama nacional. O futebol sempre foi o motor do clube, mas havia muito mais sintonia e dedicação às modalidades. A final da Taça de Portugal de andebol, no passado mês de Abril, onde umas dezenas de sportinguistas algarvios assistiram à vitória perante o Porto, foi mais uma prova que não só o ecletismo já teve melhores dias como os nossos adeptos cada vez mais só se interessam pelo futebol.
Podem dizer-me que o fantástico ambiente na final da Taça Challenge de andebol, em 2010, contradiz esta teoria, mas eu baseio-me mais nos deprimentes ambientes que acompanham esse mesmo andebol, na fase regular da competição nacional, bem como outras secções, sendo que o futsal ainda é o que encerra mais entusiasmo junto dos adeptos, talvez por também se jogar com os pés.
Dessa equipa de hóquei em patins, para lá de Paulo Almeida, destacavam-se também Vítor Fortunato e Pedro Alves, jogadores que acabam por ser identificados com outras cores, mesmo que tenham dado as primeiras stickadas com as nossas cores.
O desinvestimento ou puro abandono de diversas secções, como no caso do Hóquei, fez com que estes atletas, bem como Paulo Alves, Carlos Realista, entre outros, coleccionassem títulos e protagonismo em clubes rivais, e que para a maioria até caísse no esquecimento o seu passado de leão ao peito.
Algumas estão a despertar do seu marasmo, como o saudado regresso do basquetebol e do menos mediático râguebi, mas o jejum de títulos em várias das modalidades amadoras deve ser para perdurar.
Andebol (2005/06), Basquetebol (1981/82),  Hóquei (1987/88), Voleibol 
(1994/95).
No relato desse jogo que me fez escrever esta crónica, Pinto da Costa não chegou a tempo de dizer as habituais alarvidades que se perpetuam no tempo, tal como os títulos que colecciona.
O certo é que, mesmo que abomine a sua figura, a sua retórica e as suas práticas (com tudo o que representam para quem se rege por outros princípios e valores) o certo é que desde há 30 anos o Porto não só passou a dominar o futebol, de modo avassalador, como o faz em todas as modalidades que abraçou.
Não tem futsal, não tem voleibol, não tem râguebi, abandonou recentemente o atletismo (cuja federação não se rendeu às chafurdices dos portistas), mas onde entra é para ganhar. 
No andebol é rei e senhor, tendo este ano igualado o nosso trono de equipa dominadora na modalidade, no hóquei a ditadura é absoluta, no basquetebol só de quando em vez deixa alguém vencer.
O Barcelona e o Real Madrid também têm poucas, mas vencedoras.
O Sporting parece querer reabilitar o seu ecletismo mas o que eu quero, e penso que assim pensarão muitos sportinguistas, é que o Sporting entre para ganhar, sempre.
Fiquei profundamente triste quando acabou o basquetebol, mas mais triste ficarei se a modalidade  (ou qualquer outra) regressar sem a ambição que o Sporting e os seus adeptos a isso obriga.