terça-feira, 15 de maio de 2012

Simplex


Faz, no próximo dia 18, quatro anos que disputámos a nossa última final da Taça, mas certamente ainda estará bem presente, na memória de cada um, aquele que foi o herói improvável.
Se dissesse que esse herói se chama Bonifácio, todos franziriam o sobrolho, até soltar uma sonora gargalhada.
Contudo, Rodrigo Bonifácio da Rocha é o nome verdadeiro de Tiuí, nome de pássaro e que deu a alcunha ao então avançado leonino.
Num jogo decisivo, onde uma vez mais não pudemos contar com Liedson, que teimava em ser excluído de alguns dos grandes palcos, passou a recair sobre Derlei a nossa esperança de golos que pudessem trazer para o nosso museu esse ansiado troféu.
Num jogo recheado de casos e de falta de fair play por parte dos jogadores portistas, chegámos ao prolongamento e, perante a nossa superioridade numérica, Paulo Bento lança o pequeno e frágil pássaro, porque o passarão Vukcevic tinha amuado ao constatar que tinha sido preterido da final e nem serviu como última munição ( Paulo Bento também sabia amuar, e bem).
Rodrigo Tiuí tocou três ou quatro vezes na bola, e marcou dois excelentes golos. Já tinha marcado um, na semana anterior, num momento que quase serviria para irmos a pé a Fátima agradecer, pois Tiuí não rimava com golo, por muito que teimássemos.
Apesar disso tinha alguns predicados que apreciava, como a sua simplicidade, para lá de ter pormenores que indiciavam que poderia revelar, a qualquer momento, algum talento escondido.
Pelos vistos esse talento só se destapou nesse dia, para nossa felicidade, e o pássaro acabou por seguir o normal percurso migratório e voar para outras paragens.
Hoje é possível ler uma entrevista de Bonifácio, e se o nome indicia alguém do povo, o certo é que as suas palavras atestam que continua uma pessoa simples.

...

O Jamor foi pequeno para as suas emoções? Sentiu-se como se fosse o melhor jogador do mundo?

O melhor, não, mas senti-me grato à equipa e importante por ter ajudado a enriquecer o historial do clube. Nunca ganhei um título tão grande. Ganhei Estaduais no Brasil, mas a Taça de Portugal foi o troféu mais prestigioso que consegui.

Quantas vezes é que o DVD com os golos dessa final já foi visto e revisto? Mais de uma centena de vezes?

Seguramente. Volta e meia revejo esse jogo. E não me canso disso! Mas não sou só eu; todos os meus familiares fazem o mesmo. É uma coisa linda, que fica para sempre. No mínimo, foi um dos melhores dias da minha vida.

Nos festejos do primeiro golo, apanhou um susto valente: por detrás do painel publicitário sobre qual ia saltar estava a escadaria do túnel. Arrependeu-se a tempo, mas saiu-lhe caro.

Nem fale nisso! Acabei por partir a câmara fotográfica de um repórter. Por sorte, era uma pessoa simples, aberta ao diálogo. Eu próprio falei com ele e disse-lhe que lhe pagava a máquina.

Quanto é que lhe custou esse golo?

Não sei, não me lembro. Foi o Sporting que tirou o dinheiro directamente do meu salário e pagou por mim, depois de eu ter dado o OK.

Essa foi a noite que desejou nunca acabar?

Foi uma loucura! Depois do Jamor houve festa rija em Alvalade. Com aquela agitação toda, até era impossível adormecer. Tinha tudo na cabeça, foi gostoso ficar acordado até quase de manhã. Quando se ganha um troféu destes, nem há vontade de dormir; só pensamos em festejar.

E quando acordou, foi à papelaria e "limpou" os jornais todos...

[risos] Por acaso não fui eu; quem os comprou foi a minha mãe, mas vai dar ao mesmo. Depois, quando cheguei a Bauru, fui recebido em clima de festa por familiares e amigos. Toda a gente estava feliz por eu me ter saído bem no Sporting.



Quando, cada vez mais, o brilho da fama parece ofuscar uma grande parte dos futebolistas de determinado estatuto, sabe sempre bem ler palavras descomplexadas e humildes de alguém que vestiu a nossa camisola.