segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nem tudo o que parece é


Há semanas que deviam ser banidas do calendário. 
Lembro-me perfeitamente daquela que fez esfumar a conquista do campeonato e Taça UEFA, como num piscar de olhos, mas a vida de todos nós seguiu em frente (a menos que algum tenha sofrido uma pouco aconselhável síncope) e continuámos a sofrer com a dura condição de sportinguista.
A semana que passou não teve tanto dramatismo, mas à derrota na Taça de Portugal juntou-se uma meia-final que poderia adocicar a nossa boca e, como quem escreve o guião da nossa história não se contenta com pouco, decidiu apimentar a semanada com alguns negócios que tiraram a maioria dos sportinguistas do seu estado catatónico.
Foi a venda de João Pereira a retalho, como um lombo de segunda categoria no talho, foi o boato de Capel que... se fosse verdade, era a granel, e acabou nas promoções dos júniores Edgar e Agostinho, leve dois e pague depois.
Fiz as devidas apreciações a cada um dos casos mas, agora que a poeira assentou, vou historiar um bocadinho, auxiliando-me de uma memória digna de um estorninho, mas com muito boa vontade.
Ainda que ache e volte a reafirmar que considero Agostinho Cá (principalmente este, pelos jogos que pude ver) um grande jogador em estado de fermentação, tenho que colocar água na fervura para ajudar a afugentar alguns fantasmas que me atormentam, desde que foi noticiada a sua ida para o Inter de Milão.
Interiorizando e querendo acreditar na triste realidade que os jogadores não quiseram renovar com o Sporting, limitando deste modo a nossa margem de negociação, esta suspeita ajuda-me a desejar que o futuro destes jogadores seja tão frutuoso como o que desejo a qualquer um que vista outra camisola. Eu tenho a vantagem, sobre a maioria do comum mortal, de só sofrer com as nossa cores, relegando o clube da terra ou o clube espanhol da ordem para os intervalos da vida leonina, quase inexistente.
Por tudo isto, não querendo ser eticamente incorrecto, só desejo perder o seu rasto, mas que possam viver do futebol a ponto de poder comprar uma bicicleta para os filhos e uns walkie-talkies com 10 km de alcance.
Não considerem isto maldade pura. 
É que nem tudo o que reluz é ouro.
Mesmo que se possa augurar um futuro promissor a jovens ainda imberbes e com a cara cheia de acne, a realidade nem sempre é assim tão cor-de-rosa.
Se pensarmos por exemplo em Fábio Paim, vemos que a alguns nem é preciso rogar uma praga para que o mundo se abata sobre si próprio.
Se a uns falta a qualidade inata ou potenciada pelo trabalho metódico na formação, a outros falta o neurónio que está encarregue de distinguir o caminho do profissionalismo e o da parvoeira pura e dura.
Tivemos vários destes talentos que ameaçavam rebentar, mas o seu apogeu fez pouco mais ruído que aquelas bombinhas de Carnaval.
Porfírio, por exemplo, chegou a ser comparado a Futre, mas foi com desdém que o cheguei a ver jogar no Benfica, pois por essa altura já tinha perdido a aura de predestinado e jogar nos encarnados nos tempos de Vale e Azevedo estava ao alcance de qualquer um.
No entanto, a sua saída do Sporting não se deveu a manigâncias de empresários, aliciamento de clubes ou incompetência de dirigentes, mas simplesmente por falta de qualidade para o nível que por essa altura o Sporting apresentava.
Já as saídas de Figo e Futre, que acabaram ambos a nadar em pesetas (não associar esta alusão à palavra pesetero) enquanto o Sporting ficou com a boca a saber a moedinhas pretas , tiveram vários interesses cruzados e fomos uma vez mais incapazes de lucrar com o que cada um valia.
Isto pode levar-nos a concluir que a incapacidade para gerir os activos do clube perpetua-se no tempo, pois se Futre se tornou mercenário na presidência de João Rocha (mesmo que este se tenha vingado, indo às Antas buscar Jaime Pacheco e Sousa), já Figo teve Sousa Cintra como foco da discórdia.
Recentemente, fruto da incúria de dirigentes supostamente menos apetrechados para a sensibilidade que o futebol requer, chorou-se baba e ranho por Diogo Viana, pois foi inacreditavelmente incluído no pacote de compra de Postigol ao Porto, ficando os azuis ainda com uma percentagem de uma futura venda do avançado.
Pois bem, vendemos o Matador das Caxinas por tuta-e-meia e nós ficámos com a meia e o Porto com a tuta.
E Diogo Viana?
Pois, esse portento de técnica, que os sportinguistas viram com desagrado e quase com um ataque de nervos ir para o rival, foi dispensado e actualmente defende as cores do Penafiel.
Claro está que destes exemplos dados, alguns passaram a ilustres desconhecidos enquanto outros se tornaram ícones do futebol mundial, mas infelizmente o Sporting manteve-se fiel aos seus princípios de gerir os seus activos de modo desastrado, como um elefante numa loja de cristais.
Espero, portanto, que o tempo (o único bom aliado das nossas cores) se encarregue de colocar estes dois (como outros que demonstrem comprovadamente ingratidão ao clube) na tal galeria poeirenta dos cromos que ninguém quer.