sexta-feira, 15 de junho de 2012

Piquenique com toalhinha azul


Ao ler ontem os crimes por que Paulo Pereira Cristóvão está indiciado, mais uma vez dei por mim a pensar acerca da complexidade da justiça e sobre a eterna "cabala" que  todos e cada um dos arguidos, nos mais variados casos, diz ter sido engendrada contra si e a sua reputação.
Nisto do desporto e dos interesses que lhe estão associados, torna-se cada vez mais vulgar vermos (ir)responsáveis dos clubes a braços com a justiça, e nada como estar bem posicionado para usufruir das inúmeras benesses que por vezes são concedidas.
Umas vezes é o Presidente da República que vem indultar, outras é o próprio sistema que se encarrega de o fazer.
Por falar em sistema, o Costa deslocou-se ontem à Assembleia da República, para o encontro anual com os deputados que são adeptos do clube que veste de azul e branco. 
Já lá vão vinte anos destes piqueniques. Nem sei como é que deixaram passar os primeiros 10 anos de liderança sem uma boa patuscada.
O repasto decorreu no último piso do novo edifício da Assembleia da República (situado ao lado do Palácio de São Bento).
O líder foi recebido pela presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves. À saída, o dirigente destilou algumas atoardas, típicas de quem habituou a atacar primeiro, para evitar percalços. Rejeitou que esta confraternização reflicta alguma promiscuidade entre o desporto e o meio político, afirmando não temer as críticas:  
“Não receio, mas de certeza que vai haver, porque infelizmente o número de estúpidos não tem diminuído.”
Engraçado como a palavra promiscuidade é da mesma área vocabular de política e desporto, mesmo que aparentemente não tenham nada em comum.Além disso, num local onde passam metade do tempo a ofender-se, chamar estúpido a alguém parece quase linguagem de uma criança de 2 anos. Já estou a ver que, no próximo ano, o Costa virá dizer que são parvos e feios.
O dirigente, em declarações ao Porto Canal, elogiou a atitude de Assunção Esteves.

“É uma grande felicidade e honra, porque estamos no coração da democracia portuguesa, ser recebido com tanta amizade e tanta estima num sentido tão alargado de paixão pelo FC Porto”, disse, acrescentando: “Tenho de sentir-me feliz pela recepção que a senhora presidente da Assembleia da República nos prestou e pela sua grande coragem e verticalidade em assumir publicamente a sua paixão pelo FC Porto. Vou agradecido, feliz e honrado por ver que os portistas se assumem em todas as circunstâncias.”

Neste aspecto tenho que dar razão ao homem. Na defesa intransigente da causa, os sportinguistas deixam muito a desejar.
Viu-se, por exemplo, quando a Câmara de Lisboa era presidida pelos sportinguistas Santana Lopes e Carmona Rodrigues. Nem o Sporting nem qualquer outro deviam ser beneficiados, usufruindo de favores políticos mas, é menos compreensível que um rival tenha sido, em detrimento do clube do coração dos autarcas.

Voltando ao convívio no Parlamento, é curioso verificar que apesar das normais e cíclicas críticas, que se fazem ouvir ao ritmo dos brindes no beberete, foi por altura do caso conhecido por Apito Dourado que foram mais cáusticas.
Nem na época em que o Costa foi constituído arguido e, posteriormente, a justiça desportiva deu por provados alguns dos ilícitos, deixaram de estender a toalha e celebrar os feitos desportivos. Não seria agora que iriam acabar com uma tradição que pode rivalizar com os Santos Populares.
Apesar da carga negativa que se pode e deve atribuir a este evento, é de destacar que esta parece ser a única forma de juntar à mesma mesa ideologias e maneiras de ver a sociedade antagónicas.
Só por isto devia ser atribuído o Globo Dourado ao dirigente. 

Nesta simbiose (relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes) as vantagens são mútuas mas o amor à camisola sobrepõem-se a quase todas as outras.
A viagem de cerca de 50 assalariados do Estado a Sevilha, em 2003, para assistir à final da Taça UEFA usando o expediente de trabalho político pode ter sido uma vantagem, mas o inverso também se aplica. 
É que se em terra de cegos quem tem um olho é rei, em terra de espertos convém ter dois olhos e uns quantos conhecimentos, para o que der e vier.


Simbiose